sábado, 24 de março de 2012

Claus Ogerman - Insensatez (A.C.Jobim) - do disco "The Composer of Desafinado Plays"


       

           Trouxe este curto e excelente exemplo que mostra, em poucas palavras, a maneira de escrever de Claus Ogerman (1930) ao acompanhar Jobim, principalmente nos primeiros discos, onde a clara e simples textura orquestral é aditivamente uma marca que registrou a bossa-nova nos primeiros anos.
           As obras de Claus Ogerman  estão muito além (apesar de estar entre as mais conhecidas) do seu trabalho com Jobim, entre outros conhecidos estão seus discos com Bill Evans, Wes Montgomery, Jan Akkerman, Michael Brecker, George Benson e tantos outros. Sua produção  para o American Ballet Theatre, seu Concerto para Violino e Orquestra, o Ciclo de canções baseados em poemas de Georg Heym, seu Prelude and Chant entre outras, exploram um outro lado de Claus Ogerman com uma maior liberdade de escrita, mas ainda seu estilo, linguagem harmônica, texturas e combinações timbrísticas, permanecem.
          O disco The Composer of Desafinado Plays  foi a estréia de Jobim nos Estados Unidos. Lançado pela Verve em 1963, o album contém 11 faixas que viriam  se tornar standarts, entre eles, Insensatez (How Insensitive) que será analisado brevemente neste post.
       

    para ouvir  clique com o botão direito e "abrir em nova guia"

 Insensatez está escrita, conforme o score original, para: 
2 Flautas em G (Alto Flute),
 Violão,
Piano,
Baixo,
Bateria,
8 violinos
 3 violoncelos


          O motivo inicial da obra e sua progressão harmônica lembram  o Preludio n. 4 op. 28, comparação que já é bastante conhecida. 
          Deixando a semelhança com Chopin de lado, neste arranjo de Ogerman, os eventos são claros e simplistas no sentido que toda peça é conduzida basicamente pela "cozinha":  violão,  baixo e bateria que conduzem sem nenhuma convenção e muito reservados em toda a peça; a melodia é basicamente exposta pela mão direita do piano, com uma certa liberdade se comparado ao que está escrito originalmente no arranjo. Sendo assim, o papel das flautas e das cordas acaba basicamente em realizar um apoio harmônico a esta estrutura e também a  realização de melodias secundárias, ou popularmente chamadas de "contracanto". 
        Algumas curiosidades do score: Ogerman não escreve a bateria ao contrário do baixo que está todo escrito. Suponho que esteja desta maneira pois é Edison Machado que está tocando bateria e George Duvivier no baixo; O score já é escrito transposto; Pela letra e pela "impaciência" de escrever as pausas dos compassos em branco, suponho que este score foi escrito realmente muito rápido!
        Começando pela introdução de 8 compassos, vou abordar a relação entre essas vozes predominantes, com a exceção da "cozinha":
                
          Ogerman expõe uma ideia temática com as flautas. Esta ideia inicial tem como pilares estruturais as notas da tônica de cada acorde (ré e dó#) respectivamente nos compassos 1 e 3. Esta ideia temática  é apresentado novamente e desenvolvida pelos violinos enquanto há um contraponto comas flautas; os cellos em posição aberta, realizam a sustentação dos acordes, cada instrumento com uma voz.
          É curioso notar que a escrita de Ogerman para os harmônicos não é usual (compasso 6), ou seja, um tipo de notação comum os coloca exatamente uma oitava acima do que está escrito aqui (com a exceção do harmônico natural da primeira corda (Mi) que está escrito como de costume). Abaixo, duas possíveis escritas ao mesmo trecho dos violinos, utilizando a forma mais usual:

     Utilizando as posições exatas dos harmônicos, inclusive os naturais:


ou


     Utilizando apenas harmônicos artificiais

             As duas maneiras são um pouco difíceis de se realizarem sem que haja uma quebra do legato proposto, ainda pode ter a opção de realizar apenas oitava acima do que esta escrito (originalmente) porém no vibrato (sem vibrato), sendo o sinal de harmônico apenas um indicativo deste procedimento.
            Nos dois chorus,  a exposição da melodia principal ao piano é dominante, com a utilização das cordas e flautas somente realizando melodias secundárias (como já foi falado). No primeiro chorus, as intervenções são "tímidas", sobressaindo nos finais de cada seção e por vezes nas notas de repouso da melodia.
            As melodias secundárias são basicamente construídas por um voice-leading (não confunda aqui com o termo utilizado na análise Schenkeriana): uma voz que "costura" os acordes pelo menor caminho priorizando notas importnates de cada acorde, como as terças e sétimas. Por vezes é utilizado, na voz grave, neste caso os cellos, as próprias tônicas e quintas dos acorde. Essa utilização por Ogerman é realizada tendo essas notas como apoios estruturais, desenvolvendo com notas de passagem, onde essas criam motivos que também são desenvolvidos, ou seja, são realmente melodias secundárias pois além de realizar um contraponto com  a melodia principal, tem um estrutura interna bem definida. Esta estrutura começa a ficar mais densa ao final do primeiro chorus, uma extensão em Bm e começo do segundo onde durante todo restante do chorus e a coda, permanecem em destaque juntamente com a melodia principal.
            Como havia dito, o arranjo e textura desta obra são bastantes simples, porém, estes procedimentos  composicionais são muito satisfatórios, pois os elementos que o formam, apesar da premissa de serem simples, são muito bem escolhidos e desenvolvidos.
           Espero que de alguma forma, este post o seja útil.

Até a próxima!






4 comentários:

  1. Sensacional! os voice-leadings são uma grande sacada.

    Valew maestro!

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  2. Carlos,

    Parabéns pelo blog com o fascinante tema. Não conheço nenhum outro que aborde orquestração em português.

    Interessante notar como a escrita do Orgerman evoluiu com o tempo na parceria com o Jobim passando de uma abordagem minimalista no início para algo mais denso e profundo na década de 70.

    Abs,

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  3. Obrigado Major, pelo seu elogio e incentivo!
    É meu intuito transformá-lo em um grupo de estudos.

    Com certeza! As obras do Claus Ogerman em meados da década de 70 em diante, são bem mais densas.

    Abraços!

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