terça-feira, 27 de março de 2012

Vincent D'Indy - Souvenirs op. 62 - Dois Excertos




      Hoje trago aqui para nosso estudo, um obra muito interessante de um compositor que, de fato,  não é devidamente reconhecido por sua obra nas salas de concerto de nosso país.
      Vincent D'Indy (1851-1931) que além de escrever o importante tratado de composição o Cours de Composition Musicale (1909), fundou juntamente com Charles Bordes e Alexandre Guilmant a "Schola Cantorum de Paris". Admirador do "sinfonismo" germânico como o mostra nos estudos e análises sobre Beethoven e influenciado por seu professor Cesar Franck, D'Indy possui uma maneira muito singular do tratamento textural e harmônico em suas obras sinfônicas.
       Souvenirs (Lembranças) op. 62, poema sinfônico composto em 1906 em homenagem a sua primeira esposa Isabelle que faleceu no mesmo ano. O tema inicial, chamado Bien-Aimée (amado), que aparece nas flautas ( E-D-A-C), aparece pela primeira vez em outra obra do autor "Poème des Montagnes" op. 15 para piano, como indicia a partitura original (A. Durand). É chamado desta maneira pois o motivo aparece na obra para piano, em um movimento lento denominado Bien-Aimée, que evoca o amor de D'indy por sua esposa e pela região de Ardèche, na França.
       A instrumentação utilizada em toda a obra:

3 flautas (1 piccolo)
2 oboés 
Corne-inglês 
2 clarinetes em Sib 
 2 Fagotes 
1 Contra-fagote
 4 trompas em Fá 
3 Trompetes em Dó 
 3 Trombones 
  Trombone Baixo 
Tímpanos  (cromatiques
2 Harpas 
I e II violinos 
Violas 
Violoncellos
 Contrabaixos

       O primeiro excerto que será estudado, está nos compassos 104 a 113. É um trecho bastante curto e transitório que utiliza somente as cordas ( trompas e timpanos no compasso 104 e timpanos novamente no compasso 113), e o achei interessante principalmente pelo movimento realizado pelos cellos:



 Audio - Excerto 1 - comp. 104 a 113 

               



         A passagem é simples, porém o artifício utilizado nos cellos, permite criar um movimento mesmo em notas sustentadas pelos I e II violinos e violas. Os baixos apenas pontuam, em pizzicato, os começos de frases. Coloquei aqui pois é de fácil reutilização em obras próprias (ou arranjos).
        O segundo excerto, dos compassos 114 a 152, nos mostra a mesma idéia, em repetição utilizando orquestrações diferentes para obter contraste. A partir do compasso 137 (n. 8 de ensaio), que corresponde a terceira repetição da ideia, é quando há uma mudança mais intensa por parte do material (transposto meio tom acima) e da orquestração.
        Abaixo, cada trecho será comentado e ao final de todas as páginas correspondentes ao excerto, consta o link do áudio correspondente:


Excerto 2 A - comp.   114 a 126 

                                                                   




                 Nos compassos acima podemos dividir a textura em três elementos: elemento A (foreground): Flautas, clarinetes, em posição de enclosing (ou enclausurado, terminologia usada por Samuel Adler em Study of Orchestration) e no final, inclui-se o oboé; elemento B (background):  violino solo (dos primeiros violinos) e trompas em trinado: elemento C (background): segundos violinos, violas em pizzicato e trompete.
                Para esclarecer,sobre a primeira flauta a terminologia en dehors  tem como sentido o termo "para fora" ou "em evidência".
                Quando há a intervenção das madeiras, os segundos violinos pontuam esta aparição, surgindo um novo timbre, que em contrapartida da linearidade do trinado, o ataque percussivo e o prolongamento com as flautas e clarinetes, permitem este evento.


 Excerto 2 B - comp.   127 a 136 (até o num. 8) 

     



           No trecho acima (excerto 2 B) os elementos sem mantém e há apenas um adensamento textural com a expansão das madeiras (corne inglês + fagotes) no elemento A, violinos solo, I e II (com os trinados) no elemento B e violas (em pizzicato), trompete e harpa, no elemento C.
          É interessante salientar e comparar, como realizam outros compositores impressionistas, as passagens de uma seção para outra geralmente há um elemento (por vezes apenas timbrístico) diferente de toda seção, uma espécie de "interseccionador" das seções. Isso acontece por muitas vezes em compositores como Ravel, Debussy e O. Respighi.



 Excerto 2 C - comp.   137 a 152 

                                                              



          Na terceira parte deste excerto, há uma troca dos elementos, as madeiras (flautas e fagotes) realizam o material (trinados) que  anteriormente faziam as cordas e vice-versa. Além da mudança timbrística há também o contraste  da região tonal, aqui exposta meio-tom acima se comparada com as duas seções anteriores(como falado anteriormente) . A harpa tem um papel fundamental, além da segunda harpa realizar algumas passagem descendentes lingando frases, a primeira harpa, acentua o elemento percussivo que também é realizado pelos segundos violinos e violas em pizzicato (compasso 142).
         No final da terceira repetição desta ideia, há um aumento da densidade das madeiras a partir do compasso 143 até 146, para que as cordas no registro médio e agudo (e ainda o trinado pelos cellos desde o compasso 143) realizem a passagem do final desta seção, tornando assim os compassos 147 a 152 um último contraste antes da mudança "definitiva" de seção. No áudio é possível ouvir como a seção seguinte difere em questões de registro e textura.

  Confira o áudio de todo segundo excerto:

         



        Espero que tenham gostado! Aqui no blog vocês ainda irão ver muitas partituras de Vincent D'Indy!

       Fiquem à vontade de comentar ou sugerir algum trecho para análise!
      

Abraços

4 comentários:

  1. excelente Carlos! e ainda com áudio, muito bom. Obrigado por compartilhar toda essa informação.
    Um grande abraço e tudo de bom p/ vc
    Conrado

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  2. Muito bom! Com a explicação ficou mais fácil de sacar!

    Vc me mandaria esse pdf pra eu estudar?

    Abrass,

    Alex

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  3. Legal Alex!

    Você consegue baixar gratuitamente no site do imslp.org !

    Abraços!

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