sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Bernard Herrmann - Fahrenheit 451 - Prelude




          Depois de uma longa pausa nas postagens aqui do blog, volto comentando e analisando um gênero que ainda não havia postado aqui, a trilha sonora. Para tal iniciação, escolhi Bernard Herrmann (1911-1975) que certamente foi dos mais proeminentes compositores de Hollywood.
          Sua mais conhecida parceria é com o diretor Alfred Hitchcock (1899-1980) entre os mais conhecidos está Psycho (1960), Vertigo (1958) e The Birds (1963), porém há outras notáveis parcerias como com Orson Welles (1915-1985) em Citzen Kane (1941), que foi a sua primeira contribuição para um longa metragem e já indicado ao Oscar.
          A análise será realizada sobre o Prelúdio da música escrita para Farenheit 451 (1966), do diretor francês François Truffaut (1932 e 1984). Apesar de ser bastante curta (se compararmos os outros Preludios escritos por Herrmann) contem uma interessante e simples  textura que tem como formação orquestral:
I Harpa 
II Harpa
Glokenspiel
I Violinos 
II Violinos
Violas
Violoncelos
Contrabaixos  

           Acredito que a opção de inciar a música do filme com esta formação, tem relação direta com o roteiro baseado no livro ficção científica escrito por Ray Bradbury em 1953, que se baseia em um futuro incerto, em uma América hedonista e anti-intelectual que perdeu totalmente o controle, onde o simples prazer de maltratar, matar e destruir, viram rotina na vida urbana. A história gira em torno da profissão de bombeiro do protagonista  Guy Montag, que tem certeza de que seu trabalho (queimar livros e a casa que os abrigam, bem como perseguir as pessoas que os detêm) – é a coisa mais certa a fazer. A história é encerrada com leve tom otimista. É dito que a sociedade que Montag conheceu foi quase totalmente dizimada, e uma nova sociedade estaria nascendo de suas cinzas, com um destino ainda desconhecido. Nesse novo mundo, as pessoas que liam livros de forma outrora oculta começam a revelar-se, explicando a todos os demais de onde vieram de que forma o conhecimento que detêm poderá transformar a vida de todos de forma positiva.

Sobre a análise:

              Como comentado, a textura é bastante simples, que é realizada principalmente pelas harpas, glockenspiel e I e II violinos, tríades fechadas sempre em oitavas junto com as demais cordas com surdina. Apesar de não constar, mesmo no original, os violinos e os cellos estão em divisi iguais.

                      
             A característica mudança de acordes é dada pela relação de mediantes (terças maiores) descendentes a partir de um acorde maior, como por exemplo, nos quatro primeiros compassos: 
D - Bbm | D - Bbm |  Gb - Dm | Gb - Dm


Figura 1 - comp. 1 - 4, 
somente seção das cordas.




Figura 2 - Comp. 1 - 4



            Sonoridade que revela sua influência romântica dada pelas relações harmônicas cromáticas, inevitáveis ao realizar a relação de mediantes (iniciada com maior ênfase com Chopin e estabelecida com Richard Wagner, principalmente no drama "Tristan und Isolda"). Herrmann aproveita estas relações cromáticas para designar quase um voice leading no glockenspiel acentuando estas mudanças com um padrão rítmico/ melódico fixo que se adequa a cada novo acorde, que na trama textural, atua como "ligação" entre as tercinas das harpas e a sustentação dos acordes pelas cordas, e por soar mais incessantemente na mesma região de frequência  dos I violinos, ao contraste timbrístico é amenizado e notado com maior ênfase pelo som percussivo do glockspiel, além da mesma relação com as harpas que percorrem três oitavas com os arpejos. Essa "mistura" de ideias diferentes na mesma região de frequência é muito utilizada, como vimos nos estudos anteriores, por compositores pós-tonais, diferenciando essencialmente da orquestração do Classicismo e começo do Romantismo (com algumas exceções, como Carl Maria von Weber).
            Em outro nível de contraste, há a utilização das cordas graves que contrapõem-se ao material realizado anteriormente, no qual é repetido (notado ainda nos quatro primeiros compassos na figura 1).
             
            A mesma relação textural é mantida durante todo o Preludio. Há uma variação harmônica, novamente baseada na relação cromática, localizada a partir do compasso 7 (Dm, Ebm, Em, Ebm) e pequenas variações destas relações nos compassos seguintes

        
Figura 3 - Comp. 5 - 7






            Como o exemplo é claro e sucinto, mesmo para aqueles que não tem o costume de visualizar e estudar partituras para orquestra, sugiro que realizem uma análise harmônica (está quase toda feita!) e estabeleça algumas relações com a questão formal do Preludio, que está divido em duas seções: A- compassos 1-11 e B- compassos 12 - 20. A irregularidade formal (seção A) contribui para um interesse maior, já que em outros aspectos formais, é muito claro e quase previsível (dadas as repetições dos compassos).
             
          Há inúmeros exemplos muito interessantes de Herrmann e certamente irei trazer aqui para nosso estudo e melhor compreensão dos timbres e texturas utilizados por este compositor.

          Para realizar o estudo que mencionei, faça o download do link abaixo da partitura do Preludio. Lembre-se que seu uso está integralmente ligado ao propósito de estudo (não comercial). 




         Fique à vontade em perguntar e participar deste blog, pois acima de tudo, trata-se de um grupo de estudo aos interessados por orquestração. Não deixe de ver as publicações mais antigas, pois já têm muita coisa para ser estudada! 

       Peço que compartilhe com quem se interessa pela arte da orquestração!
     
       Grande abraço a todos!

                                                       

2 comentários:

  1. Seu blog é excelente, Carlos, parabéns!!!!!
    Abraços,
    Sérgio Zurawski

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  2. Muito bom. A muito eu procurava este tipo de material. Parabéns.

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