quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Arnold Schoenberg - Pelleas und Melisande - Op. 5 - Langsam



            Arnold Schoenberg (1874-1951) compositor e professor austríaco, é amplamente conhecido por seus estudos e publicações com relação a fundamentação do sistema tonal e suas relações formais e motívicas como em Fundamentals of Music Composition (Fundamentos da Composição Musical) editado em 1967 por Gerald Strang, com relação a harmonia (no sentido mais amplo da palavra) Harmonielehre, publicado originalmente em 1911, entre outras obras que são referências à todos os músicos que desejam ter uma profunda  fundamentação teórica e aplicação no sistema tonal.
             No período de 1903 a 1925, compositores de Viena, especialmente Alban Berg (1885-1935) e Anton Webern (1883-1945) juntamente com Schoenberg, formaram a chamada Segunda Escola de Viena (Neue Wiener Schule) onde suas obras eram caracterizadas pela expansão tonal do pós-Romântismo germânico, e seguindo o desenvolvimento da linguagem musical de Schoenberg, o total expressionismo  cromático sem a afirmação de um centro (tonal), (que geralmente é expresso por atonal ou como o próprio Schoenberg afirmava, não-tonal), que levou ao desenvolvimento da técnica dodecafônica.
                Entre suas obras masi importantes estão: 6 Lieder (1899 1903)op. 3 para voz e piano, que exibe uma claridade tonal tipicamente de Brahms e Mahler, e também  relações cromáticas que se aproximam a Wagner; Verklärte Nacht (1899) - op. 4, obra programática para sexteto de cordas (posteriormente adaptada para orquestra de cordas) que utiliza a técnica do leitmotif. Os únicos elementos motívicos que persistem através da obra são sempre dissolvidos, variados e recombinados em uma técnica identificada primeiramente na música de Beethoven e pricipalmente em Brahms, que Schoenberg chama de developing variation (desenvolvendo a variação), desta maneira, a peça sugere dois níveis de organização, uma seguindo uma narrativa de ideias motívicas (Wagner), e um desenvolvimento motívico e coesão tonal (Brahms); Gurre-Lieder (1901/1911); Pelleas und Melisande (1902-1903) do qual um excerto será analisado aqui; Das Buch der Hängenden Gärten, Op. 15 (1908–1909); Kammersymphonie, Op. 9 (1906), que apresenta como desenvolvimento tonal materiais sobre a escala de tons inteiros e harmonia quartal e importância textural ao discurso; Quarteto de Cordas n. 2 com Soprano, Op. 10 (1908), que somente no último movimento há utilização de material atonal; Erwartung, Op. 17 (1909); 6 Kleine Klavierstücke, Op. 19 (1911)Pierrot Lunaire, Op. 21 (1912) com a utilização do Sprechgesang; Variações para Orquestra, Op. 31 (1928); Ode a Napoleon Buonaparte, op. 41 (1942); Concerto para Piano, Op. 42 (1942); Moses und Aron (1930-1932) ópera inacabada .
                Os excertos que serão analisados fazem parte de uma das peças de projeção do começo de carreira de Schoenberg, o poema sinfônico Pelleas und Melisande, baseado na obra de Maurice Maeterlinck, escrito entre 1902 e 1903, do qual, como comentado anteriormente, ainda foi escrito como parte do desenvolvimento tonal do compositor, assim assemelhando-se quanto a linguagem harmônica e textura orquestral, a Mahler e Richard Strauss, e no desenvolvimento temático, a Brahms e Wagner (constando aqui, como em Verklärte Nacht, dois níveis de organização temática).
                Sua instrumentação:




Piccolo

 3 Flautas (3ª flauta dobra 2º piccolo)

 3 Oboés (3º Oboé dobra 2º Corne-Inglês)

 Corne Inglês

1 Clarinete em Mi bemol

3 Clarinetes em Si bemol e Lá (3º clarinete dobra 2º clarinete baixo)

Clarinete Baixo

3 Fagotes

Contrafagote


8 Trompas em Fá
4 Trompetes em Mi e Fá
Trombone Alto
4 Trombones Tenor


Tímpano (2 executantes)
Triangulo
Pratos
Tam-tam
Bombo
Glockenspiel

2 Harpas
Violinos I & II
Violas
Violoncelos 

Contrabaixos


           Em livros analíticos com de Alban Berg em "Pelleas und Melisande von Arnold Schönberg Op. 5. Kurze thematische Analyse" (1920) e reproduzido em parte na obra de Walter Frisch : "The Early Works of Arnold Schoenberg- 1893 - 1908" (1997), nos trazem uma lista de todos os temas apresentados em Pelleas por Schoenberg. Como aqui vou me limitar a algumas poucas palavras a cerca de sua orquestração, objetivamente relacionarei o tema de Melisande 1 (descrição feita por Berg) ao "tema de amor" deste movimento.
Melisande 1
                                                                        
    Tema de Amor


                Notadamente o "tema de amor" é uma variação ao tema de Melisande, seu perfil ascendente (cromático no primeiro e grau conjunto, no segundo) com uma quarta aumentada (no último tema, ascendente).
                Ouça e visualize com a partitura abaixo o começo deste movimento (antes de ver a análise da orquestração deste excerto).


Excerto 1 - Áudio -  quatro primeiros compassos de 36




                    Schoenberg utiliza uma textura orquestral relativamente simples para expor este tema. O elemento A (ou foreground) está no nos I violinos uníssono com parte dos cellos (que estão em divisi),  no terceiro compasso de 36, ganha reforço do corne-inglês. Os elementos no plano de fundo (background) é formado pelos segundos violinos, violas, trompas e fagotes. Uma característica de todo o movimento,  são pequenas intervenções contrapontísticas ou até ornamentais (como neste caso) no plano médio (ou middleground) como no destaque para as cordas, especialmente os cellos (segundo divisi ) na figura abaixo:

                 
                   O próximo excerto é a continuação do último, ou seja, quinto compasso de 36.

Excerto 2



            Tipicamente como um procedimento de orquestração wagneriano (que provém de Beeethoven), basicamente ao aumentar a densidade textural, madeiras e metais dobram as ideias presentes nas cordas. Neste caso, como violino II viola e cello estão em divisi, são muitos elementos que  dobrados, assim a partitura pode parecer "confusa" aos olhos de quem não está acostumado com este tipo de textura, mas em uma análise mais detalhada é possível traçar as idéias e a escolha dos instrumentos para a dobra, que por vezes expressam apenas parte das frases do seu duplo nas cordas. Perceba que este excerto é uma sequência, procedimento composicional que também é utilizado para crescer e chegar ao momento (mesmo que parcial) de clímax, como o presente no exemplo apresentado.
             O terceiro excerto,  ocorre no número 37, onde o compositor utiliza rápidos momentos de imitação, combinados com um timbre dos I violinos em oitavas em divisi, que pelo timbre e região destacam-se do restante da orquestra,  formam um trecho singular no movimento (contraste), que utiliza mais uma vez a repetição (procedimento composicional característico para dar unidade a peça).
              Logo abaixo, confira a partitura e o áudio deste excerto:


                                                                                                                                                             Excerto 3


              No próximo exemplo, a partir do número 38, o tema inicial é apresentado transposto e em textura diferente do início do movimento. Mais uma vez, a atenção vai para o elemento que na gravação pouco se ouve, mas no resultado textural total do excerto é bastante importante: neste caso é o elemento presente no clarinete baixo ou clarone, que juntamente com uma intrincada construção do midleground formado pelas violas, I e II trompas, I e II fagotes e adicionado ao background dos contrabaixos, III e IV trompa, III e IV fagote formam a textura complexa deste exemplo. Confira na partitura abaixo:


Excerto 4





            No quinto e último excerto deste post, consta um a preparação muito interessante para o clímax deste movimento. Utilizando outro procedimento composicional, além da sequência há a liquidação do tema, ou seja o compositor, vai dissolvendo o tema em "pedaços" cada vez menores até chegar o ponto de mudança seccional. Além disso no começo  do excerto, número 41 de ensaio, Schoenberg realiza uma interessante trama textural com as cordas e II fagote: uma célula de 4 semicolcheias que se repete em três oitavas distintas (descendentemente), além da realização de dois temas já apresentados anteriormente no movimento, o primeiro pelas flautas, oboés, clarinetes  e o segundo pelo corne inglês, I fagote, I e II trompas e violas; contrabaixo, parte dos cellos, III fagote, III e IV trompa completam a textura que culminará no número 42, que é muito semelhante a Strauss, que costuma criar uma textura bastante complexa e densa para a realização deste momento de clímax  Perceba que as cordas que anteriormente estavam em divisi (quase sempre), aqui estão em uníssono pois o trecho demanda volume (quanto mais divisi, menos volume!). Atenção especial também a seção dos metais que carregam elementos independentes de toda a orquestra assim como parte das madeiras.





Excerto 5





         Naturalmente, muitos elementos não foram comentado, neste caso, convido a você a analisar este exemplo de Schoenberg afim de procurar outras relações texturais para conseguir aplicar em suas peças ou arranjos. O mais importante neste caso, não é a cópia, mas entender como o compositor obteve este resultado sonoro, ou seja, através da análise.
          Outro artifício usado para compreender melhor as orquestrações, são as reduções de piano! Tente começar a fazer de compositores que tenham uma escrita orquestral mais simples. É de fundamental importância a realização destas reduções, pois além da orquestração, é possível compreender com maior clareza outros importantes aspectos da obra.

          Para conseguir a partitura completa do Pelleas, basta acessar o site imslp.org !
         
         Deixe o seu comentário!!!! Críticas, sugestões, enfim, qualquer retorno é muito importante para um melhor aproveitamento deste blog! 

         Espero ter ajudado a compreender melhor a orquestração presente nestes excertos!

          Grande abraço a todos!

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