quinta-feira, 23 de maio de 2013

O Uso de Harmônicos Naturais e Artificiais nas Cordas com Arco







    Este post tem como objetivo ajudar a compreender o uso de harmônicos naturais e artificiais para as cordas com arco.
    Para o compositor e arranjador, a utilização de harmônicos pode ser um recurso muito importante para explorar novos timbres e novos registros (tessitura) no naipe das cordas. A utilização (principalmente dos harmônicos artificiais) tornou-se  mais recorrente a partir do século XX, porém no final do século XIX,  já existem exemplos de grande representatividade do uso dos harmônicos, como o Trio do Scherzo (terceiro movimento) do Quarteto de Cordas n. 1 de Alexander Borodin (ouça o excerto):


fig. 1- compassos 1 a 20




Sobre os harmônicos


 Os harmônicos naturais são notas produzidas pelo leve toque em alguns pontos chamados de "nós" que são as parciais resultantes de uma determinada fundamental, que neste caso é a corda solta, como por exemplo na corda sol, 4ª corda do violino:


fig. 2


    Se a corda solta é um sol 2 (primeira nota do quadro acima), a sua metade (proporção 2:1) produzirá um som exatamente uma oitava acima (sol 3). O mesmo acontece com os nós presentes dentro destas parciais, como por exemplo, representado no quadro abaixo:



fig. 3


     De maneira prática, as parciais a partir de cada fundamental (cordas soltas) no violino são:




      Os harmônicos podem ser representados por três maneiras:

1- Um pequeno círculo acima da nota do som pretendido;

2-  Uma nota convencional  onde a fundamental será estalecida e um pequeno losango na nota onde o nó será produzido.

    
fig. 4 - nesta exemplo, ambas notações  para o mesmo ré.

     3- Essa representação facilita a visualização pelo intérprete. É baseada na opção 2 com a adição da nota  pretendida:
fig.5

       Basicamente a diferença entre as opções é o grau de informação dada ao intérprete, pois na opção 1, o compositor deixa a cargo do intérprete com a maneira que ele prefere para a realização do harmônico lembrando que dependendo da nota desejada, podem existir mais de uma maneira para a  realização de um mesmo harmônico; a opção 2 tem um maior grau de precisão, definindo como o músico irá produzir o harmônico e a opção 3 que possui bastante informação e facilita a leitura do intérprete (sendo a melhor opção para o caso de escrita para músicos pouco experientes).



Sobre a aplicação dos harmônicos naturais

Com exceção do contrabaixo, na escrita orquestral é usual a utilização de até 5 ou 6 partições.

Para iniciar, vejamos uma tabela de referências dos harmônicos naturais no Violino:

fig. 6 - The Technique of Contemporary Orchestration - Casella & Mortari - pg 171


     Perceba que no quadro de referências, a notação se inicia pela segunda parcial harmônica, dado que a primeira é a própria fundamental. Neste quadro é apresentado cada um dos harmônicos sempre em duas versões de escrita ( 1 e 3), exceto a primeira partição onde é somente possível na versão 1. Na partição 5, o intérprete possui 3 possibilidades para a sua realização. Vale lembrar que a partição 6 é pouco utilizada pela dificuldade e qualidade sonora do harmônico produzido.

    O mesmo vale para os demais instrumentos da família das cordas com arco, por exemplo a Viola:

fig. 7 - The Technique of Contemporary Orchestration - Casella & Mortari - pg 184




Violoncello:



                                                                                            fig. 8 - The Technique of Contemporary Orchestration - Casella & Mortari - pg 194






Contrabaixo:

                                                                                                fig. 9 - The Technique of Contemporary Orchestration - Casella & Mortari - pg 208

   
      Perceba que no contrabaixo é possível realizar as demais parciais (até a 12).


Sobre a aplicação dos harmônicos artificiais

     A principal diferença entre os harmônicos naturais e artificiais é que no primeiro caso, a fundamental é dada pela corda solta do instrumento e no segundo as fundamentais são móveis, ou seja, é possível realizar qualquer o harmônico a partir de qualquer nota do instrumento, não necessariamente as cordas soltas.
     O princípio é o mesmo, porém a maneira mais usada é a diferença de uma 4ª justa entre a fundamental e o nó, que produz um harmônico duas oitavas acima da fundamental. As possibilidades são:



1- Intervalo de 4ª justa entre a fundamental e o nó. Produz harmônico duas oitavas a partir da fundamental- mais utilizado

2- Intervalo de 5ª justa entre a fundamental e o nó. Produz harmônico uma oitava e uma quinta justa a partir da fundamental

3- Intervalo de 3ª maior entre a fundamental e o nó. Produz harmônico uma oitava e uma terça maior  a partir da fundamental.

4- Intervalo de 6ª maior entre a fundamental e o nó. Produz harmônico uma oitava e uma terça maior  a partir da fundamental.

5- Intervalo de 3ª menor entre a fundamental e o nó. Produz harmônico duas oitavas e uma quinta justa a partir da fundamental.


    Geralmente o compositor indica qual a corda que o intérprete usará ao realizar os harmônicos, como consta no exemplo do Quarteto de Cordas de Borodin (figura 1). Neste caso o compositor indica "Sul" e a corda requerida ou número da corda, como por exemplo: Sul G, Sul IV ou apenas IV que significa na corda Sol (no caso dos violinos).
  Para os se interessaram pelo assunto, é importante estar familiarizado com os instrumentos de cordas (afinação, posições, etc) pois facilitará a utilizar o maior número de possibilidades que o instrumento pode oferecer.


Limites práticos do uso dos harmônicos





Exemplo 

    Abaixo, um exemplo da utilização de harmônicos naturais e artificiais. Dependendo do intérprete, o mesmo pode preferir apenas o uso de harmônicos artificiais, mas o uso mais comum, é misto (naturais e artificiais). Lembrando que as parciais mais altas, possui uma dificuldade maior para obter um harmônico de qualidade, portanto, pode-se substituir os harmônicos naturais com parciais altas por harmônicos artificiais.

Melodia para Violino



Com Harmônicos




Outros exemplos do repertório (com áudio)

1- Webern - Seis Peças para Orquestra, Op. 6 - n. 5 comp. 21 a 26

     Aqui os harmônicos nas cordas são utilizados para sustentar os blocos acordais, com a adição dos trombones. A gravação consta todos os instrumentos. Por isso, atente-se somente as cordas para ouvir os harmônicos.

fig. 10
fig. 11




2- Gustav Mahler -Sinfonia n. 1 "Titan" - 1º movimento - Início - comp. 1- 10
  Mahler abre a sinfonia com um grande uníssono orquestral em harmônicos, o que certamente não era nada convencional para uma sinfonia na época (1888).
fig. 12




3- Stravinsky -Sagração da Primavera - Introdução - a partir do numero 10

    O compositor utiliza os contrabaixos em divisi por 6 em harmônicos para a sustentação de um bloco acordal (também utiliza violoncelo solo com surdina).
fig. 13
fig. 14


Glissando com harmônicos

    Em muitas peças do século XX, os compositores fazem uso do glissando com harmônicos naturais, que basicamente o intérprete desliza o dedo na corda, realizando os harmônicos naturais de forma rápida. A sua grafia é complementada pela corda utilizada, como no exemplo (para violino):




      Há inúmeros exemplos com a utilização dos harmônicos. Abaixo, uma pequena lista de peças onde você poderá encontrar:

- Maurice Ravel - Daphnis et Chloe, Suite 1 e 2
- Debussy - La Mer e Prèlude à l'après-midi d'un faune
- Samuel Barber - Medea - "Dance of Vengeance"
- Aaron Copland - Sinfonia n. 3- Segundo Movimento
- N. Rimsky Korsakov - Sheherazade - Segundo Movimento - Vivace scherzando
- Schonberg - Concerto para Violino



Espero ter auxiliado no entendimento dos harmônicos nas cordas!

Sugestões ou perguntas são sempre bem-vindos!

Até a próxima!

Carlos C. Iafelice



2 comentários:

  1. Cara, parabéns pelo post, tudo muito bem explicado! Já estou seguindo seu blog, espero que continue postando esses assuntos interessantes e que são de grande valia para o compor.

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  2. Olá Carlos tudo bem? Meu nome é André e estou no segundo ano de Bach em Regência na Unesp. Muito legal o conteúdo do seu blog! Estou começando a compor algumas coisas, e o seu blog me ajudou muito! Muito obrigado, e parabéns pelo excelente trabalho! Abraços!

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